26 setembro 2013

26 setembro 2013

Até o fim raiar

Foto por Vevodahd (http://www.flickr.com/photos/86091598@N02/)
- Tá ficando orgulhosa, não pede mais carona. - Roberto disse depois de encostar o carro enquanto eu andava depressa na calçada. Tínhamos acabado de sair do mesmo lugar, mas há tempos não tenho coragem de dirigir a palavra a ele por medo de que as dele me firam. - Entra aí. - Ele destravou as portas e eu não hesitei.

Acho que nunca contei minha história com Roberto com muitos detalhes - e nem o farei agora -, mas nos conhecemos há 3 anos, entramos e saímos de um relacionamento durante esse tempo, depois voltamos e terminamos de novo, voltamos mais uma vez, nos afastamos quando viajei pra fora, voltamos um pouquinho e agora não sei bem aonde estamos. Somos dois loucos, admito. Tenho tentado amenizar a dose de loucura na minha vida, então decidi manter uma distância saudável.

Pela milésima vez.

Nunca adianta muito.

A noite estava gelada, só por isso não hesitei em entrar no carro. Minha caminhada até em casa seria um pouco longa e eu também não estava disposta a andar naquelas botas apertadas. Tudo colaborou pra que eu só sorrisse e abrisse a porta.

Sentei e suspirei. Estava sem fôlego por andar rápido demais. Roberto me olhou e riu.

- Você tava correndo? - Ele perguntou, finalizando com um riso.

- Eu odeio essa rua, é tudo escuro!

- Fiquei com dó de você, tá muito frio. Você é louca de ficar andando por aí assim.

- Não precisa ter dó, mas tá frio mesmo, eu tô toda gelada! - Esfreguei as mãos e ele as segurou ainda estacionado, com o pisca-alerta aceso. Ficou sentindo minha temperatura e começou a acariciar meu rosto. Eu estava sorrindo e parei. Só o encarei. Acho que é uma parte de mim tentando gravar o momento, sempre gostei muito desses gestos aleatórios. Abaixei a cabeça e ele acelerou.

Como eu já disse, tento não trocar muitas palavras, porque já percebi que falo demais e ele quer acompanhar meu ritmo, mas acaba não pensando e solta coisas que vão além do que eu quero ouvir. Mas estar ali, no banco passageiro depois de tanto tempo (um mês é muito tempo, no nosso caso), ouvindo uma rádio qualquer e o ouvindo cantarolar músicas que ele não conhece, me lembrou que a vida já foi melhor.

- Ando tão cansada.

- É? Que cê tem feito? - Ele costumava ter um tom malicioso na voz quando fazia essa pergunta todas as vezes que eu dizia estar exausta, mas não naquele momento.

- Corrido atrás de tanta coisa, tenho passado o dia todo fora. - É verdade, mas não sei até que ponto meus compromissos têm me cansado. Minha exaustão tem vindo de dentro. De mim, de casa. - A vida anda louca. - Só pra completar com um verso de uma das nossas músicas favoritas.

- Você precisa de alguém pra te ajudar, você não pode fazer tudo sozinha. - Sei que ele estava falando de toda papelada com a qual tenho lidado, as ligações que tenho feito e recebido, os compromissos que marco e desmarco, que esqueço e que compareço, mas tudo o que eu conseguia pensar era no quanto ele me ajudava com todo o resto simplesmente estando ali.

- Eu sei me virar. - Com qualquer coisa, menos comigo.

Acho que o trajeto, de carro, não dura mais que 10 minutos, mas sempre parece durar muito quando estamos em silêncio. E depois da minha resposta, não trocamos mais palavras até dois quarteirões antes da minha rua.

- Vai ficar aonde?

- Me deixa na esquina mesmo, eu vou até o shopping.

- Com esse frio?! Já te trouxe pra você não ficar andando. Vai fazer o que lá?

 - Andar. Eu não posso ir pra casa. Não quero, não tenho vontade. - Alguma coisa em mim decidiu que desabafar com alguém que sempre tentou fugir dos meus problemas era uma boa ideia. - Tá tudo muito difícil e eu preciso andar, pensar, ficar quieta e eu volto quando estiver melhor.

Silêncio.

- Para aqui, ó.

Parou.

- Destrava a porta.

Não destravou.

- Se cuida, tá?

Se inclinou pra um beijo. Eu, que sempre corri para os braços dele, não consegui sequer levantar a cabeça pra dizer tchau. Engoli o choro, apertei os olhos e dei um breve beijo. De quem sabe que vai se ver amanhã, de quem tá em paz com o que se tem e não pretende prolongar o momento por medo de não ter mais nenhum como aquele. Eu tenho mil e um lados e acho que ao menos um deles estava bem. Não disse nada, só saí. Andei até a esquina e ameacei atravessar em direção ao shopping, mas voltei porque minha lanchonete favorita fica do outro lado. Ele parado no carro, provavelmente me observava. Esperei o sinal fechar e as lágrimas começaram a cair.

Eu já tive tantos pontos baixos na minha vida, mas me senti em um dos piores deles ali. Tentei engolir o choro, em vão. Os carros pararam, eu corri. Corri muito e sentei na praça, desesperada, tentando entender o que estava acontecendo, o que era aquele colapso. Roberto costumava me fazer tão bem, mas talvez certos problemas ninguém possa resolver por mim. Então talvez também não valha a pena envolver pessoas na minha bagunça. Entendi aí o por quê de ter deixado Roberto naquele carro quando antes eu literalmente me agarrava a ele. Comecei a tentar me recompor depois desta reflexão e entrei em outra. De como nada disso tem a ver com ele, mas como ele sempre me fez superar as dificuldades. De como certos problemas ele nunca resolverá por mim, mas será sempre a luz no fim do túnel. E se tem uma coisa que eu acho maravilhosa é a luz depois da escuridão. O sol brilhando num dia cinzento. Damos muito mais valor, damos muito mais amor. E tá tudo bem. Pra nós, todo o amor do mundo.




5 comentários:

Gabe Moreira em 26/9/13 disse...

Menina, que texto maravilhoso! :O Perdi o fôlego aqui hahahah Parabéns pelo talento! :D

Christopher Woods em 26/9/13 disse...

Nossa, quanto talento guria! Parabéns ;)

Mayara em 26/9/13 disse...

@Gabe Moreira ME BEIJA hahahaha <3

Mayara em 26/9/13 disse...

@Christopher Woods MUITO obrigada <333

Fernanda em 27/9/13 disse...

Adoreeei o texto! Muito lindo mesmo! E essa foto tá demais!

Beijos
Fashion Victim

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