03 dezembro 2013

03 dezembro 2013

Uma vida

Foto por http://www.flickr.com/photos/jufesa/

Não tenho conseguido escrever, não sei se notou. Eu tenho duzentas páginas para entregar em 3 meses e mal escrevi duas linhas. E não pense que é forma de dizer: eu realmente não passei da metade da segunda linha. Eu tinha pelo menos quatrocentas páginas prontas, só esperando para serem anexadas, mas pensei muito a respeito e decidi que falar de amor não é para mim. Acabo me repetindo, falando sobre a mesma pessoa em todos os capítulos, como se tivéssemos história suficiente para um longo livro. Não temos, acredite. Em três anos, eu mal sei quais cidades ele tem vontade de conhecer ou ao menos qual é sua cor favorita. Parece louco que eu consiga amar tanto alguém sabendo tão pouco sobre ele.

A verdade é que tenho percebido que todo esse amor que penso sentir não passa de vício. Obsessão. Algo assim. Eu o conheci quando estava prestes a fazer dezessete anos - na fase mais maluca da minha vida. Eu era uma daquelas adolescentes que você vê em filmes americanos. Rebelde ao extremo. Eu não sabia lidar com as mil coisas que aconteciam ao meu redor e muito menos com o transtorno de personalidade que havia descoberto no começo de 2010. Eu dependia de hábitos ruins e algumas pílulas. E quando o conheci quis melhorar, de um dia pro outro. Como se fosse possível. Mas eu melhorei, sim. E passei a depender totalmente dele.

Agora, me responda: como é que isso pode ser amor?

Eu não sabia viver de outra forma. Se não estivesse perto dele, recorreria aos meus antigos hábitos, por mais que lutasse contra. Era uma batalha diária e eu só conseguia vencer quando sabia que estaríamos juntos em poucas horas. Era como aguardar a hora de tomar o remédio para acalmar os nervos. Você deve imaginar como a vida virou de ponta cabeça quando precisei dizer adeus. Caí em tentação, foi dez vezes pior do que ter de lidar com os meus antigos problemas. Dói muito mais quando você precisa dar um basta. Eu preferia ser vazia como antes.

É verdade que não durou muito. Eu voltei correndo, em busca de algo que me salvasse de novo. E aí me sentia bem e dizia adeus mais uma vez. Fiquei nisso por tanto tempo. Demorei um ano para aceitar que a vida não pode ser vivida assim. Seria melhor nem viver se fosse nessa tortura. Tive que dar um jeito de aceitar de uma forma mais rápida. Bebida barata, amigos no Baixo Augusta, noites desperdiçadas com todos eles e dias desperdiçados dormindo de tanto cansaço. Era a vida que pedi a Deus. Conseguia dormir sem precisar pensar muito antes de pregar os olhos e não precisava lidar com o mundo no tempo em que ficava acordada.

Eu tenho um conceito muito estranho de cura.

Engraçado é que tudo isso passou. Passei um mês no interior, chorando de saudade, mas tentando focar em mim, porque já fazia um bom tempo que isso não acontecia. Foquei nas minhas paixões. Alguém naquele fim de mundo tinha um violão meia boca que me ajudou. Eu lembrei de levar meu pen drive com o meu musical favorito - que tanto me ajudou quando comecei a perceber que era diferente das outras crianças. Eu joguei algumas roupas fora. Roupas também carregam muita bagagem. Sou supersticiosa, não sei se já disse. Perdi o fio da meada - parou um caminhão na janela do quarto que dá para a rua. E eu estou com sono. Mas ah, tudo passou. Eu voltei depois de toda essa limpeza espiritual e lembrei que amo isso aqui, ó. Escrever. Cantar (estou fazendo isso agorinha, às 04h49). Pensar que superei tudo que me faz mal, mesmo que não. Porque dizem que a mudança começa pelo otimismo. Não sei se é verdade, mas ser negativa também nunca me trouxe coisas boas.

E eu sei que disse que escrever sobre amor não é para mim, mas esqueci como é bom falar sobre amor próprio.



3 comentários:

Alexia Cavalcante em 3/12/13 disse...

Adorei!

Papo de Meninas
Sorteio

Daniela Pereira em 3/12/13 disse...

Ai, o dia que eu puder escrever um texto desses vai ser maravilhoso, assim como o seu! ♥
http://daniperere.blogspot.com.br/

Ellen Alves em 22/2/14 disse...

Eu AMO sua escrita. O rumo que você dá as palavras e a carga significativa de sentimentos que você poe em todas elas. Apesar de ser um texto nostálgico e triste... O final, você fechou com muito estilo!
Se tá de parabéns, flor!
Beijinhos <3
http://www.momentosassim.com/

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